‘dessa vez, eu fui um pouco mais longe!’ essa é a história de uma tartaruga que botou uma mochila nas costas e resolveu conhecer o mundo.

como podem notar, a mochila era bem maior do que a sua cabeça; dizem alguns, para disfarçar a cabeça-de-mamão-macho, outros, que era uma mochila-barraca, sob a qual se esconderia nos dias chuvosos; outros, que era uma borboleta sem asas, viajando num casulo-trailler, seja lá como for, era uma tartaruga com pressa de viver;

‘pressa de viver?’ - perguntou a lesma que passava por ali, ‘como assim?’
a tartaruga escondeu-se em sua mochila-barraca e não respondeu, ‘mas você vai aonde com uma mochila desse tamanho?’ – insistiu a lesma, ‘para o mar’ - disse a tartaruga; ‘para o mar?!? você está louca?!? lá tem sal! lá tem muito sal!’ – respondeu a lesma.

então, a tartaruga mudou de direção; não porque daquele lado o mar era salgado, mas para terminar o assunto com a lesma, e terminou o assunto; não porque não gostava da lesma, mas porque precisava estar sempre só;
um certo dia, porém, encontrou uma tartaruga chamada Boné;


boné era um cara estranho; ele não se escondeu quando eles se encontraram; e não perguntou aonde ela ia com aquela mochila, ele também tinha uma, mas não parecia ser de viagem; nas primeiras horas, a tartaruga continuou escondida;

mas, como boné não se mexia, ela colocou a cabeça para fora e espiou; nada, boné continuava imóvel, a tartaruga também; afinal, talvez ele fosse o arrancador de cabeçaas de tartarugas, uf.. ela sentiu um calafrio ao se lembrar da vez em que foi pega por ele; embora não tenha morrido, ele arrancou muitos pedaços, depois disso, a tartaruga sempre se escondia quando alguém tentava se aproximar, mas boné não se aproximava e a tartaruga, aos poucos, tentou sair da barraca;

‘ei’ - cutucou. ‘você está bem?’ – boné não respondeu, e também não saiu do lugar;
a tartaruga andou bem devagar ao redor dele, quando tocou a sua mochila, descobriu um pergaminho branco, com uma história que ela jamais pôde esquecer;

era uma história dura, tinha ferro, tinha mancha, tinha perigo, vai ver tinha até arrancadores de cabeça, mas era uma história doce, apesar de tudo; uma história que dizia 100% algodão, 100% algodão… 100% algodão… a tartaruga ficou repetindo, com o olhar perdido, que bonito era aquilo;

passaram-se muitas semanas sem que a tartaruga seguisse viagem, todos os dias, ela desenrolava o pergaminho e lia a história de novo, e de novo, e de novo; era como viajar nas grutas mais fundas sem se cansar, trazia alimentos e água para Boné, mas ele não se mexia;


um dia, um vento muito forte lançou boné para longe, e ela, que nunca tinha visto tartaruga alguma voar, pensou que era assim que boné terminava o assunto, e foi embora; no caminho, pensava nele, e se estivesse se debatendo naquela posição? nenhuma tartaruga gostava de ficar olhando para o teto, voltou;

quando chegou perto, descobriu que dentro de boné havia um imenso vazio, um buraco; ‘dói?’ – a tartaruga perguntou; boné não respondeu, também, como poderia? e a tartaruga andava para lá…  e andava para cá…

sem saber o que fazer, e mesmo sem saber se era o correto, resolveu levá-lo junto;

foi quando chegou o arrancador de cabeças em passos ligeiros! a tartaruga tentou correr o mais depressa que pôde, mas o arrancador veio com tudo, olhou daqui, olhou dali, enfiou o boné na própria cabeça e saiu, a tartaruga foi atrás, dizendo:

‘fuja, boné! não deixe que eles te levem! não deixe! fuja, fuja daí!’ mas boné não disse nada, o vazio que tinha por dentro foi todo tomado pela cabeça do arrancador, e a tartaruga andava para lá… e andava para cá… sem saber o que fazer; então, elaborou um plano…