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tempo congelado, horas passando despercebidas, cheiro doce, de flores talvez; uma levesa, como se tirassem os pés do chão, mas espere, era uma garota que ela beijava, nunca havia sentido-se assim antes, como podia sentir-se tão culpada e tão feliz com tudo isso?
a primeira vez que seus lábios haviam se encontrado e ela sentia um misto de sensação que nunca havia conhecido. fora de fato seu primeiro beijo?
quisera ela nunca ter experimentado outro beijo antes, quisera ela nunca ter encontrado outros lábios, mas antes, nenhum outro beijo lhe fizera sentir tudo aquilo, na verdade, nenhum outro beijo lhe fizera sentir coisa alguma.
ela não sabia o que fazer, almejara aquilo a vida inteira, tanto quanto fugia disso, e agora que de fato conseguira, só imaginava ser sonho, sonho do qual não sabia como sair, nem se queria de fato acordar.
inúmeras perguntas surgiam em sua cabeça, o que vai acontecer agora? o que eu vou fazer? será que de fato sou o que sempre soube e fingia não ser?
com um salto e uma queda direto ao chão, o beijo por fim acabara, ela gaguejava, pigarreava, não sabia o que dizer ou fazer, não sabia o que ser ou onde estar, apenas tremia e tentava encontrar palavras, a outra sorria e dizia ‘você deveria estar em casa essa hora’, ‘err, eu já vou indo’ disse ela e saiu quase que cambaleando e sem acreditar no que acabara de acontecer.
caminhar é bom e ela seguiu o caminho mais longo para casa, assim teria mais tempo para pensar; pensar, era o que ela mais fazia, era a única coisa que ela fazia, todo o tempo, por tudo e qualquer coisa, lembrava o que havia acontecido e não entendia de certa forma.
ficava o tempo todo a se perguntar, por que havia sentido tudo aquilo, e principalmente, por que não havia sentido aquilo antes, ela achava ter gostado dos garotos que havia se envolvido antes, por mais que o tratasse com desdém, achava que um dia algum seria importante, mas no fundo sabia que nunca foram,que nunca seriam.
nunca imaginou que beijar uma garota mudaria tanto sua vida, na verdade, nunca imaginou que beijar uma garota a faria de fato ter vida, sair do personagem que havia montado por toda uma existência.
ela agora sentia-se livre para ser de fato ela, sentia-se livre e destemida, não queria mais oprimir seus sentimentos e vontades.
não ela não gostava da garota, fato, sequer sentia-se atraída por ela, e quando foi abordada e se deu conta que já estava envolvida num beijo, percebeu que de fato nunca havia beijado.
nenhum outro beijo havia feito ela queimar por dentro e suar frio, tremer ou arrepiar-se.
por fim havia chegado em casa, descalçou o tênis, tomou um copo de suco, tomou um longo banho e continuou a pensar, lavou os cabelos, escovou os dentes, por fim olhou-se no espelho, deu um sorriso bobo, a final, havia beijado uma garota, vestiu uma samba-canção de seda, vermelha com uns desenhos do ‘taz’, pôs uma camiseta folgada, deitou-se e ali ficou por um longo tempo, não conseguia dormir. como poderia dormir?
havia beijado uma garota. uma garota, uma garota, uma garota.
estas palavras ecoavam em seu pensamento, em sua cabeça, nas paredes do seu quarto.
uma garota.

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